Ação contra França vira trunfo constrangido do PT em negociação com PSB | Política Livre

Foto: Arquivo pessoal O ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e o ex-governador Márcio França (PSB) em reunião 6 de janeiro de 2022 | 21:46

Ação contra a França vira trunfo do PT na negociação com o PSB

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A ação policial contra o ex-governador Márcio França (SP) se transformou em um inesperado trunfo e algo envergonhado do PT na negociação emoldurada com o PSB para formar a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de outubro.

Não que os petistas tenham comemora isso, dado que muitos viram na divulgação dos ecos de ação dos atos da operações que o PT tem sofrido nos últimos anos, particularmente sob a égide da Lava Jato. Mas, privadamente, os arredores de Lula esperam que os socialistas, com uma estrela sob pressão, deixem o que chamam de salto alto.

Na quarta (5), a Polícia Civil de São Paulo deu batidas em endereços ligados ao ex-governador e sua família, como parte de uma apuração sobre desvios de saúde que data de 2018 e que já teve pessoas condenadas. A França refutou irregularidades e, sem citar o sucessor e o desamor João Doria (PSDB), disse que foi vítima de uma perseguição política.

Lula e o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad (PT), que quer disputar o governo paulista assim como a França, foram os primeiros a prestar solidariedade ao aliado.

Não foi um gesto casual, embora óbvio dado que o discurso do PT para se defender das denúncias de corrupção em seus governos neste ano vai passar pelo que chama de perseguição política da Lava Jato.

Foi o “timing” que flagrou o atenção. Se ele tivesse falado por último, digamos, Lula passaria a receber o recebimento da grande insatisfação do PT com o comportamento do PSB naquele período de negociações eleitorais. Na forma como agiu, buscou-se manter uma sinalização de prioridade para a festa.

O que significa, de fato, que o relógio está fazendo tique-taque. Igualmente visto de saltar pelos aliados, o PT considera hoje o atual favoritismo de Lula nas urnas para poder fazê-lo prescindir do PSB -que, incidentemente, até jogou em 2014 com candidatura do próprio Planalto.

O PSB vive uma crise interna, com alguns de seus candidatos estaduais, como Marcelo Freixo (RJ), advogando por uma ampla aliança que inclui formar a chamada federação partidária com o PT.

Mesmo aqui, no entanto, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, está vendendo caro seu produto. Exige apoios diversos do PT: França em São Paulo, o Geraldo Júlio em Pernambuco, o Beto Albuquerque, no Rio Grande do Sul.

É preciso que, talvez ao tomar o caso gaúcho, os petistas tenham candidatos competitivos nestes países-chave-se não para vencer, para puxar bancadas federais e estaduais. Em outros, o apoio aos socialistas ocorrerá de qualquer maneira, como no Maranhão (Flávio Dino) e Rio (Freixo), ambos por anemia de leads e por reciprocidade de apoio específico.

A confusão paulista é central, já que envolve o principal interesse de Lula nesta etapa da pré-campanha, que é a costura em torno do nome de Geraldo Alckmin (ex-PSDB) como seu vice.

O ex-governador paulista surgiu como símbolo de concertação na visão de Lula, com a vantagem de não acariciar alguns pesos que outros nomes conservadores poderiam trazer: partido, bancada, influência no Congresso ou mesmo voto (tinha menos de 5% na eleição presidencial de 2018).

Se isso parece um defeito, lulistas sempre lembram da densidade política do então deputado Michel Temer (MDB), a quem acusam de ter operado para ajudar a derrubar Dilma Rousseff (PT) em 2016 -a uma gestão desastrosa da petista que viabilizou seu processo de impeachment é lembrada apenas à boca menina.

Próxima Da França, seu vice e quem entregou o Palácio dos Bandeirantes ao frustrado empreendimento contra Jair Bolsonaro (PL), Haddad e empresa, Alckmin abandonou o projeto de se lançar ao governo estadual pelo PSD de Gilberto Kassab e preparado para se juntar ao PSB na chapa de Lula.

O atrito em curso veio em inviabilizá-lo e o PT já vinha conversando internamente e com Alckmin sobre outros portos em que ele pode pousar sua nave. Os petistas até pisaram em Kassab com o vice dado ao ex-tucano em sua sigla, mas o plano de reforço do PSD do cacique falou mais alto.

A especulação mais recente é o PV, e o ex-conversa sobre adesão ao Solidariedade de Paulinho da Força também voltou à tona.

Do outro lado, a denúncia é pública, com políticos vociferando contra o que vem como o plano hegemônico do PT na centro-esquerda. Ciro Gomes (PDT), preterido em discussões passadas e hoje presidenciável quase que por uma questão de honra pessoal, é sempre lembrado como um exemplo de como aliena um aliado.

Uma pessoa próxima a Siqueira alerta para o fato de que Lula terá que ter cuidado se pretende jogar com a letra do enfraquecimento da França. Afinal, o ex-governador foi o proponente, com Haddad, do casamento com Alckmin.

Ambas, a França e o ex-prefeito, viram na hipótese também uma maneira de tirar o ex-tucano da partida paulista, onde saiu em boa posição. Permaneceu então para saber quem abriria a mão, se isso ocorreria, a partir da candidatura deste campo de centro-esquerda.

Todos esses problemas se tornaram evidentes após o momentoso jantar do grupo de advogados Prerrogativas, no final do ano, quando Alckmin e Lula selaram o namoro publicamente. Recentemente, o petista disse a amigos que o evento adiantou o calendário e teve o condomínio de expor veleidades e dificuldades na hora de corrigiá-lo.

As reclamações do PT com aliados não somaram ao PSB. O PSOL tem conversado com o PDT de Ciro para o presidenciável apoiar Guilherme Boulos para o governo paulista.

Na visão do PT, isso demonstra miopia política, porque uma aliança com Lula e Haddad poderia agora garantir o psolista como candidato da esquerda à Prefeitura de São Paulo em 2024-ele perdeu o segundo turno para Bruno Covas (PSDB) em 2020.

No PSOL, por outro lado, o exemplo Ciro sempre é lembrado. Poucos pensam que, na hipótese de Lula ser eleito, o PT lançaria um candidato a perder como fez há pouco mais de um ano com Jilmar Tatto na maior cidade do país.

Enquanto isso, Lula segue jogando o mais ainda possível. Não sem erros: recentes falas desajeitadas e a escolha, atribuída por seus arredores a um erro da direção do partido e não ao presidenciável, para Guido Mantega falar sobre economia em um artigo no jornal Folha de S. Paulo.

Não por acaso, o próprio ex-presidente fez o ex-ministro da Fazenda, abominado no mercado financeiro, dizer que falou por si mesmo no texto.

Igor Gielow / Folhapress Voltar para a página inicial

Fonte: politicalivre.com.br/2022/01/acao-contra-franca-vira-trunfo-envergonhado-do-pt-na-negociacao-com-o-psb

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