Bolsonaro acusa mídia tradicional de fake news em documento para cúpula da democracia de Biden | Política Livre

Foto: Alan Santos / PR/Arquivo O presidente Jair Bolsonaro 3 de dezembro de 2021 | 21:45

Bolsonaro acusa mídia tradicional de fake news em documento à cúpula da democracia de Biden

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Em um documento de compromissos apresentado à organização da cúpula da Democracia, que será realizada em Washington nos dias 9 e 10 de dezembro, o governo brasileiro acusa a mídia tradicional de desinformação e pede discurso livre na internet por vozes de diferentes ideologias.

No texto, o Brasil diz que a mídia tradicional responde por grande parte da desinformação que circula no país e frisa que enfrentar o problema não pode acabar em censura, uma bandeira também levantada pelo ex-presidente americano Donald Trump. O governo Bolsonaro costuma afirmar que vozes conservadoras e governistas foram perseguidas e censuradas por plataformas de internet e pelo Supremo Tribunal Federal, que mandatou a prisão do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos.

Integrantes do governo americano consideraram as promessas do governo brasileiro “inusitadas” para a cúpula, que tem como um dos objetivos a proteção de jornalistas profissionais. O presidente americano, Joe Biden, anunciará como um de seus compromissos o “incentivo à imprensa livre e independente”.

Inicialmente, a ideia era defender no texto a liberdade de imprensa de forma mais geral. Bolsonaro tem sido alvo de críticas de entidades internacionais devido à intimidação sistemática de jornalistas no país.

O governo brasileiro se mostrou aliviado com a inclusão do país na lista de convidados para o evento e ficaria indignado se fosse vetado. Membros do governo apontam para o fato de que países classificados de não livres, ou parcialmente livres, entraram na lista -para o Freedom House Global Freedom Index, convidado como Angola, República Democrática do Congo e Iraque são considerados “não livres”.

O governo americano levou em consideração contextos estratégicos ao selecionar os convidados-o Paquistão, por exemplo, é um país chave para o contraterrorismo. A Índia, considerada parcialmente livre, é parceira na disputa geopolítica com a China, assim como as Filipinas.

O Brasil quer usar a participação na cúpula para “re-afirmar o compromisso com a democracia, a luta contra a corrupção e os direitos humanos”, temas do evento. Também quer deixar claro que o país defende a democracia, desde que respeitada a soberania dos países. A participação do presidente Jair Bolsonaro e de outros líderes soma-se a um vídeo de três minutos e uma discussão, em que a presença do brasileiro não está confirmada-ela pode ser representada por algum membro sênior do governo.

Além do discurso, cada país enviará à cúpula uma lista de compromissos voluntários. A expectativa é de que haja uma nova reunião no final do próximo ano, para acompanhar o andamento dos objetivos. Como na Cúpula Climática, realizada em abril, a ideia é que os países façam um acompanhamento conjunto dos avanços uns dos outros, sem que fique claro quais seriam as punições em caso de contratempos.

Outras promessas a serem apresentadas pelo Brasil na cúpula são o compromisso com o Estado de direito, a liberdade de pensamento e de expressão, inclusive na internet, a realização de eleições livres e justas e a manutenção dos avanços nos direitos humanos. ” As instituições democráticas brasil-democratas vêm enfrentando desafios ao longo do tempo, o que demonstra sua robustez. Têm muito a ensinar ao mundo sobre a democracia “, disse Juan Gonzalez, diretor sênior e responsável pela América Latina no Conselho de Segurança Nacional, ligado à Casa Branca, em conversa com jornalistas nesta quinta-feira (2).

Questionado se há temores no governo de Biden de que Bolsonaro se recuse de reconhecer uma derrota na eleição de 2022, Gonzalez disse ter” confiança plena ” que o Brasil realizará um voto livre e justo.

O conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan, em viagem ao Brasil em agosto para reiterar a oposição americana à participação de fornecedores chineses na infraestrutura 5G brasileira, também deu a nota de que os EUA se mostraram preocupados com as ameaças de Bolsonaro ao sistema eleitoral.

Do ponto de vista do governo de Biden, um dos objetivos da cúpula é estabelecer uma aliança de países democráticos em oposição à China, na tentativa de isolar o regime de partido único e sem eleições livres.

A minuta de um documento em apoio a internet gratuita, uma forma de restringir a expansão dos padrões tecnológicos chineses, chegou a circular, mas acabou por não entrar na agenda da cúpula. Por isso, além das disputas geopolíticas, causou desconforto à arbitrariedade na escolha dos convidados para o evento.

A China manifestou-se à irritação do Brasil devido à cúpula. Os chineses terceirizaram a posição de que os EUA não podem se considerar a instância global que determina unilateralmente quem é, ou não, democrático.

O Partido Comunista Chinês planeja lançar no sábado (4) um relatório intitulado “China: A Democracia que Emprega”. Trata-se de um aceno de todo sutil aos EUA, que têm vivido diversas turbulências eleitorais e políticas, incluindo a resistência de Trump e de seus seguidores a aceitar o resultado da eleição que fez alusão a Biden à presidência, em 2020.

O fato de a Hungria ter sido excluída da cúpula também causou inquietação entre os europeus, que expressaram insatisfação nas negociações diplomáticas. A União Europeia tem vários problemas com o governo autocrata do primeiro-ministro Viktor Orbán, mas sim que o déficit democrático do governo húngaro foi o tema dos europeus, sem que isso tenha sido apontado pelos EUA.

Representantes do governo húngaro tentam bloquear a participação da UE na cúpula, dizendo que como o país não foi convidado, ele não apoia um posicionamento conjunto no evento.

Na América Latina, o governo argentino insistiu que a Bolívia fosse incluída -sem sucesso. O governo boliviano tem relações conflituadas com os EUA e chegou a expulsar o representante da Agência de Aplicação de Drogas (DEA) quando Evo Morales foi presidente.

Além dos líderes ‘ reunião, haverá uma série de eventos para debater medidas práticas, como o fortalecimento da Legislatura, prefeitos e sindicatos, a abertura do espaço para uma maior inclusão de negros, LGBTQIA + e minorias na política e o uso da tecnologia para combater a corrupção.

Em algumas delas, os países estrangeiros apresentarão estratégias que deram certo. Até a tarde desta sexta-feira (3), não havia informações se o Brasil participaria de qualquer ação. Haverá também uma série paralela de debates, organizada por instituições da sociedade civil, ainda sendo montada.

Há também a expectativa de que o governo de Biden anuncie novos recursos e iniciativas para a proteção de jornalistas e ativistas de direitos humanos em países onde eles estão em perigo e que haverá um esforço americano para convencer outros governos a dar mais recursos para programas do tipo.

Assim como nos debates ambientais, porém, resultados claros podem levar a aparecer se não houver medidas consistentes, o que gera alguma frustração entre ativistas. Um deles, que ajudou na organização da cúpula, disse, sob condição de anonimato, ter ouvido que suas expectativas teriam de ser um pouco mais baixas e que isso é apenas o começo-o trabalho real só viria nos próximos meses.

” Em muitos aspectos, a cúpula é formatada para falhar. As questões são duras, a diversidade de governos dificulta a realização de acordos e o formato virtual acaba com as oportunidades de negociação nos corredores “, diz Benjamin Gedan, vice-diretor do programa América Latina do think tank Wilson Center.

” Por outro lado, o evento poderia dar a partida em uma conversa internacional mais urgente sobre as ameaças à democracia. A cúpula terá sucesso se atingir isso e se gerar uma melhor coordenação entre democracias, organismos multilaterais e organizações civis “, pontua Gedan.

Patricia Campos Mello / Rafael Balago / Folhapress Voltar para a página inicial

Fonte: politicalivre.com.br/2021/12/bolsonaro-acusa-midia-tradicional-de-fake-news-em-documento-a-cupula-da-democracia-de-biden

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