Vacinação contra gripe fica abaixo da meta em 98% dos municípios

SAÚDE

Apenas 82 cidades das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste atingiram a meta de 90% de cobertura vacinal contra a influenza. Especialistas alertam para o risco de complicações, principalmente entre idosos.

A cobertura vacinal contra a influenza, vírus responsável pela gripe, está abaixo da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde em praticamente todos os municípios das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. O cenário preocupa especialistas, especialmente diante do aumento da circulação de vírus respiratórios e do risco de complicações entre pessoas mais vulneráveis.

Dos 5.119 municípios dessas quatro regiões, apenas 82 (1,47%) alcançaram ou ultrapassaram a meta de imunizar 90% do público prioritário. Outros 139 municípios (2,5%) registraram cobertura superior a 80%.

Os dados foram extraídos nesta quinta-feira (29) do painel de vacinação contra a influenza do Ministério da Saúde.

Na maior parte das cidades, a cobertura permanece distante do índice considerado ideal. Ao todo, 2.935 municípios (52,68%) vacinaram entre 41% e 60% do público-alvo. Outras 1.571 cidades (28,2%) registraram índices entre 61% e 80%.

Considerando as quatro regiões, 52,45% da população prioritária está imunizada. O grupo é formado por pessoas com 60 anos ou mais, crianças de seis meses a menores de seis anos e gestantes.

Baixa cobertura vacinal preocupa especialistas

A infectologista Rosana Ritchmann, integrante do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), alerta que as mudanças de temperatura nas regiões Sul e Sudeste favorecem a transmissão da influenza e de outros vírus respiratórios.

Segundo a médica, a influência do El Niño e as alterações climáticas tornam o cenário epidemiológico ainda mais preocupante.

“É um ano crítico, devido à influência do El Niño. O problema não é só a baixa cobertura, mas também o fato de que a vacina confere uma proteção que não é tão prolongada, em torno de seis meses. Muita gente tomou vacina em março, por exemplo, e nós estamos em outubro. Essas pessoas podem se infectar”, afirmou.

A especialista também destaca que a circulação do vírus tem ocorrido fora do período tradicional, com temperaturas mais baixas favorecendo a transmissão.

“Estamos vendo casos de influenza fora de época. As temperaturas baixas favorecem a transmissão do vírus, e nós deixamos os ambientes menos ventilados”, explicou.

Idosos estão entre os grupos mais vulneráveis

A baixa adesão à vacinação entre pessoas idosas é uma das principais preocupações dos especialistas. Segundo Rosana Ritchmann, o sistema imunológico tende a responder com menor eficiência à vacinação conforme o envelhecimento.

A infectologista observa que houve uma mudança no comportamento de vacinação. Até três anos atrás, pessoas com mais de 70 anos apresentavam adesão regular às campanhas contra a gripe, padrão que deixou de ser observado. Em contrapartida, a cobertura entre gestantes e crianças apresentou evolução positiva.

A preocupação está relacionada ao risco de complicações provocadas pela influenza, que pode causar quadros graves, especialmente entre idosos.

Entre as possíveis consequências estão pneumonia bacteriana, necessidade de internação e problemas cardiovasculares.

“Existe uma relação comprovada cientificamente do vírus influenza levando, por exemplo, ao infarto agudo do miocárdio”, destacou a médica.

Brasil registra mais de 1,3 mil mortes por gripe em 2026

Dados do Ministério da Saúde apontam que, até 19 de outubro de 2026, o Brasil registrou 17.679 casos de influenza e 1.343 mortes relacionadas à doença.

Os registros incluem infecções por influenza A H1N1, A H3N2, influenza A não subtipada e influenza B.

No mesmo período de 2025, foram contabilizados 25.438 casos e 3.176 óbitos.

Apesar da redução nos números em comparação com o ano anterior, especialistas reforçam a importância da vacinação para reduzir o risco de complicações e mortes.

Campanha de vacinação no Norte ocorre em período diferente

A campanha de vacinação contra a gripe segue um calendário diferente na Região Norte do Brasil.

Desde 2023, a imunização na região ocorre no segundo semestre, geralmente em meados de novembro, devido às particularidades climáticas do chamado inverno amazônico.

Por esse motivo, ainda não há dados disponíveis de cobertura vacinal da região no levantamento citado.

Nas demais regiões do país, a campanha costuma começar em março.

Vacinação continua sendo recomendada

A orientação dos especialistas é que as pessoas que ainda não receberam a vacina contra a influenza procurem os serviços de saúde para verificar a disponibilidade e a indicação da imunização.

A recomendação ganha importância adicional para quem pretende viajar ao Hemisfério Norte, onde a circulação do vírus costuma ser intensa neste período do ano.

A vacina é uma das principais estratégias de prevenção contra a gripe e contribui para reduzir o risco de formas graves da doença, especialmente entre idosos, crianças e gestantes.

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