Comissão propôs cortes e alterações em trechos sobre a ditadura militar, direitos indígenas, Haiti, Guerra do Paraguai e até samba-enredo da Mangueira
Uma comissão da Câmara dos Deputados propôs alterações em um livro sobre a Independência do Brasil que seria publicado pela Edições Câmara, editora da própria Casa Legislativa. Entre as mudanças sugeridas está a retirada da expressão “ditadura militar” de um dos trechos da obra.
As intervenções foram relatadas em uma carta divulgada por um grupo de historiadores e incluiriam ainda a exclusão de frases e parágrafos inteiros. Segundo o documento, os cortes atingiriam temas como direitos indígenas, uma comparação histórica entre Brasil e Haiti e até uma referência ao samba-enredo apresentado pela Mangueira em 2019.
Obra reúne textos de pesquisadores
O livro reúne uma seleção de artigos publicados entre 2022 e 2023 no Blog das Independências, projeto da Associação Nacional de História (ANPUH), na revista acadêmica Almanack e na Sociedade de Estudos do Oitocentos.
As instituições e projetos envolvidos são voltados à pesquisa e à divulgação de estudos relacionados à história do Brasil, especialmente ao período do século XIX e ao processo de Independência.
As alterações foram propostas pela Comissão Especial dos 200 anos da Câmara, criada para participar das comemorações do bicentenário do Parlamento brasileiro. O colegiado é formado por 15 parlamentares e tem como presidente o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG).
Câmara afirma que não havia versão final para publicação
Em nota, a Câmara dos Deputados afirmou que houve discussão sobre ajustes nos textos apresentados, mas que não foi alcançada uma versão final considerada adequada para uma publicação institucional.
A instituição também destacou que o encaminhamento de uma proposta editorial não representa, por si só, um compromisso de publicação da obra.
Segundo a Câmara, as decisões sobre seleção e publicação de livros pela Edições Câmara fazem parte da autonomia administrativa e editorial da instituição e seguem as normas internas e o planejamento editorial da Casa.
A controvérsia ocorre em meio ao debate sobre os limites da atuação institucional na edição de obras históricas e sobre a preservação da autonomia de pesquisadores e especialistas na produção de conteúdo acadêmico.
